quinta-feira, 21 de julho de 2011

A partida

A partida

Primeiro de agosto de 1999. Dezenove horas e trinta e cinco minutos. Vejo a pior cena da minha vida. Uma bicicleta destroçada, um monte de ferro retorcido juntamente com restos de borrachas que anteriormente podiam ser chamados de pneus. Mal sabia eu que naquele momento teria a notícia mais trágica de minha vida, onde até hoje não me recuperei. É uma dor tremenda, como se tivesse rasgado meu peito, retirado todos os meus órgãos. 

Quase doze anos de saudades, mas ainda permanece o vazio.

Aser aya hoja qwer maná.
  

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As monstrinhas

Sônia era a supervisora mais assustadora que qualquer escola poderia contratar para fazer parte do seu quadro funcional. Só de ouvir falar o nome dela os alunos se arrepiavam. Na verdade não sabia quem era pior, se era ela ou Geraldina, a diretora nojenta, abusada e arrogante que mais parecia um saco de batata ambulante. Eram verdadeiras figuras que podiam fazer uma pontinha num filme de terror sem necessidade alguma de maquiagem especial porque eram verdadeiros monstrinhos e já nasceram vestidas nos seus personagens. Sejam bem vindas a masmorra do castelo real de areia amarela...

Playground

Marina aproveitou que o avô entrou na cozinha para fazer um lanche rápido no meio da manhã e saiu bem de fininho e subiu no trator que ele estava arando a terra. Ela muito ansiosa para dirigir aquela máquina, nem procurou saber antes como a mesma funcionava, mas já foi mexendo e o trator saiu em disparada fazendo um barulho horroroso. Estava fascinada com a máquina que era muito diferente e estranha para uma menina de dez anos. O que ela não sabia era que de longe o empregado da fazenda a observava só esperando o momento certo de frear o trator que para ele era bem fácil. Quando ele ia ao encontro de um lago que tinha na fazenda, Antônio o empregado, saiu em direção dela e desligou o trator. Ela deu um grito tão estrondoso que assustou a todos e a reação foi uma gargalhada geral ao se depararem com a cena que acabavam de presenciarem. Marina aprendeu que não se deve mexer em nada sem antes pedir autorização, mesmo que seja na casa de parentes.   

Adriel

Menino contente que nem mesmo a violência do bairro em que vivia tirava seu sorriso e entusiasmo. Era o “fazedor” de serviços, o “pau” mandado das madames, todos o admiravam muito por trabalhar honestamente, às vezes em excesso, mas nem mesmo assim demonstrava cansaço e nem desistia facilmente das coisas principalmente daquilo que acreditava e queria.

Por onde andas, menino?  

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Primogênita

Um dia de Sábado bem cedo, Marieta resolveu ir até o comércio pegar alguns gêneros alimentícios para fazer as refeições do dia e um rapaz a abordou deixando-a sem jeito e ela não lhe deu atenção. Ele que já conhecia os donos do comércio e perguntou quem era a nova empregada, Dona Ceiça falou o seu nome. Por vários dias ele a observava de longe e tomou coragem perguntando seu nome. No começo ela desconversava, se esquivava, mas ele continuou insistindo até que um dia ela aceitou seu flerte.
 Ele trabalhava na fábrica de Doutor Barreto exercendo a função de inspetor geral. Realmente ela era bem notável, de longos cabelos lisos e negros até a cintura, traços de índia, olhos bem expressivos, magra, sorriso acanhado, lindo dentes brancos, mas aparentava não conhecer nada da vida.
João insiste em manter contato e quando ela passa ele pergunta:
 - É nova por aqui? - Ele quer estreitar a distância entre os dois.
Ela responde:
- Sim. - Ela tem receio da insistência, mas aceita conversar.
- Você mora aqui perto?      
- Sim.
- Seu nome?
- Marieta.
- O meu é João. 
Ao ouvir seu nome ela se afasta e vai embora.
Por vários dias ele tenta manter contato, mas ela tem medo de se envolver.

Final de abril, enfim, João insiste mais uma vez e consegue namorar Marieta. Era engraçado o namoro dos dois porque ela na conhecia muita coisa e ensiná-la tornava constrangedor, pois ela tinha vergonha de perguntar e ele não se sentia à vontade de esta corrigindo algumas coisas que ela falava ou fazia e errado.

Em julho, os dois vão morar juntos em Eduardo Gomes, hoje Parnamirim. Os pais dela descobrem que a mesma está em Natal e resolvem ir buscá-la juntamente com as outras irmãs.
Aí descobrem que ela acabou de se casar escondido com João. Ela se nega a voltar com eles.

Em março de 1977, nasce a primeira filha do casal, Ariadna. Miúda, pesava pouco.


Marieta

Dezembro de 1975. Manhã de sol. Brisa fria, vento que sopra no rosto, muitos campos verdes às margens da BR-101 nas proximidades de São José de Mipibu, sentido interior Natal, dentro de um velho ônibus da extinta Empresa Queiroz e Melo, viajava uma jovem morena de 21 anos, olhos castanhos amendoados, bastantes curiosos e atentos a qualquer ser ou objetos da estrada. Em seu peito o coração batia forte ora pela sensação de liberdade por ter fugido da casa dos pais, outra ora era pelo fato de não saber o que a esperava na capital visita essa tão sonda por Marieta. Sua ideia de fugir poderia até ser inusitada, mas ela tramou em silêncio essa aventura porque duas de suas oito irmãs já haviam feito o mesmo e por não terem voltado ela imaginava que as mesmas tinham se dado bem. Meninas do interior sempre achavam que na capital tinha muita coisa boa, mordomia, vida melhor que no campo... Mas o destino guardava muitas surpresas para ela.

Chegando a Natal, tratou de procurar um lugar para ficar. O único trabalho que encontrou foi o de doméstica na casa de Dona Ceiça, mulher boa, humilde, dona de um estabelecimento comercial juntamente com seu marido Paulo, moradores do bairro de Mirassol. Ela começou no trabalho, e como não conhecia ninguém nas redondezas, não tinha para onde ir, ficava dentro de casa ou na pracinha em frente ao comércio de seus patrões.
Em muitas das vezes que ela ficava sozinha se perguntava:
 - Será que está valendo à pena ter saído da companhia dos meus pais para buscar minha independência? Queria me livrar do roçado porque meus pais só pensavam nisso e em cuidar dos bichos. Queria estudar, ser alguém melhor, mas será que consigo aqui? Onde será que estão Rute e Raquel”.
 Aos poucos Marieta ia caindo em seus pensamentos, muito longe da sua realidade atual.

Em março de 1976, Marieta conhece João e muda toda a sua vida.


Saudade

Agosto de 2009. 10 anos.
Como o tempo passa rápido. Ainda não consigo entender porque você se foi. Perdoe-me por não ter ido ao hospital te visitar. Eu não teria suportado te ver daquele jeito. Mas também me arrependo, pois teria te visto pela última vez falando. Até hoje quero saber qual foi o recado que você deu a enfermeira para dar a mãe e nós não sabemos de nada porque nunca conseguimos encontrar a tal enfermeira.
Sinto tanto a sua falta... Era invejável a sua força de vontade em sempre superar todos os obstáculos que surgiam em sua frente, qualquer dificuldade parecia pequena diante da sua força, mas infelizmente a maior de todas você não suportou.
Sempre me sentia feliz quando te via com a auto-estima lá no teto! O modo como defendia mãe das investidas violentas de pai.
É irmão, as coisas por aqui estão horrorosas, sabe quando você não tem ânimo para nada? Assim estou sem saber o que fazer profissionalmente. Às vezes me pego olhando tuas fotos, lembrando das suas risadas, dos assobios, dançando forró, vivia fazendo presepadas. Lembro do teu último assobio, da última risada, do último brilho no olhar, como você estava vestido com uma camiseta regata de cor preta, bermuda jeans azul, basqueteira branca com detalhes em vermelho.
Sua última frase foi: “A bênção mãe? Não vou demorar, vou até Ponta Negra e já volto. Quando chegar, tomo banho e janto”.
Era precisamente dezoito horas e trinta e cinco minutos, segunda, 1° de Agosto de 1999. Não vou esquecer tudo o que aconteceu, quando uma viatura chegou com tua bicicleta toda empenada. Estava lavando louça. De longe reconheci tua bike nas mãos de um policial e pedi para mãe ir até a viatura saber o que tinha acontecido. Ela não acreditou no que os policiais disseram. Telma foi com ela até o Walfredo Gurgel saber como você estava e voltou dizendo que seu caso era grave, teve traumatismo craniano encefálico, ou seja, morte cerebral, só o coração funcionava. Na época eu não sabia que nesses casos, não há reversão, aguarda-se apenas a morte total e o corpo fica apenas ligado nos aparelhos para possível doação de órgãos, pai nem mãe quiseram fazer a doação, mas tiraram. Senti quando você estava morrendo, foi uma dor terrível... Se algum dia te fiz algum mal, me perdoa. Não é fácil falar essa palavra nem praticá-la. Você sabia quantas mágoas eu tinha e que ainda existem muitas. Daria a minha vida para te ter de volta.  De uma coisa tenha certeza: te amo muito viu, e nunca te esquecerei. Você será eternamente lembrado enquanto vida eu tiver. 
Sua partida ate hoje dói demais. Várias vezes sonhei com você, e em sonho conversávamos, mas não ouvia tua voz. Sempre acordava chorando.
E hoje, como estás?